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16 de Dezembro de 2018

Ainda existirão advogados no futuro?

Alguns escritórios de advocacia nos EUA já usam Inteligência Artificial como “associado digital”, delegando a algoritmos preditivos a tarefa de executar buscas inteligentes por documentos, pareceres e jurisprudências referentes aos casos em análise.

Avelino & Fagundes, Advogado
Publicado por Avelino & Fagundes
há 3 anos

Ainda existiro advogados no futuro

Replico abaixo interessante artigo de Cezar Taurion sobre a utilização da Inteligência Artificial e outros recursos da tecnologia na atividade advocatícia com vistas ao futuro.

Espero que gostem.


Cezar Taurion *

Tenho observado nas conversas com executivos de negócios e de TI que muitos ainda consideram a Inteligência Artificial (IA), os veículos autônomos e os robôs convivendo entre nós um cenário ainda futurista. Mas já está acontecendo e nem percebemos. Usamos isso cotidianamente em apps e sites de comércio eletrônico que nos sugerem o melhor caminho, o filme que gostaríamos de assistir e o produto que teremos interesse em comprar. Várias empresas de tecnologia estão trabalhando ativamente em tornar a IA mais e mais lugar comum. O recente lançamento do Messenger, do Facebook, com recursos de chatbots é mais um passo nesta direção.

O que o avanço da Inteligência Artificial embute no nosso dia a dia? Uma mudança significativa no futuro de várias profissões. Já aceitamos e convivemos com a realidade de tarefas de baixa qualificação substituídas por automação. Mas e quando esta começa a chegar ao nível dos tomadores de decisão, os “knowledgers workers”?

A realidade está mostrando que a indústria da música, agências de viagem, jornais e agora táxis se transformaram ou estão em processo de transformação. Setores sólidos e tradicionais simplesmente desabaram e tiveram que encontrar novos modelos de negócio para sobreviverem.

Vamos pegar uma tradicional profissão, a advocacia. Uma provocação que podemos fazer é: “ainda existirão advogados no futuro?”. A taxa de acertos em previsões futuristas é mesma de chimpanzés jogando dardos e acertando o alvo, mas podemos debater algumas ideias e tirarmos conclusões por nós mesmos. Claro, desde que não nos apeguemos a crenças e paradigmas que nos limitam o olhar crítico.

Vamos analisar o contexto. As práticas de trabalho dos advogados não mudaram muito nas últimas décadas. Recomendo um livro instigante, “The Future of the Professions: How Technology Will Transform the Work of Human Experts”, que mostra o potencial de disrupção diante de várias profissões como as conhecemos hoje.

O livro mostra que os advogados oferecem assessoria personalizada de alto custo e que os sócios dos prestigiados escritórios presidem organizações em forma de pirâmide, recebendo altas comissões, enquanto batalhões de advogados principiantes fazem o trabalho árduo de buscar precedentes e elaborar contratos. Os altos custos destes escritórios e dos seus honorários propiciam um cenário aberto à disrupções. O livro faz uma comparação simples, com os veteranos taxistas de Londres, que para obterem seu certificado precisavam dominar de memória a geografia das ruas. O serviço era, portanto, caro. E foi rompido pelo Uber, que atraiu batalhões de motoristas que cobram barato e navegam por GPS. Isso não poderá acontecer com os advogados?

Já existem algumas iniciativas muito interessantes, ainda desdenhadas pelos advogados tradicionais, que podem provocar um efeito Uber nos próximos anos. Por exemplo, a NextLaw Labs, empresa de tecnologia mantida por um escritório global de advocacia, está financiando startups de tecnologia jurídica. Um dos seus primeiros investimentos é uma startup chamada Ross Intelligence, que usa o Watson da IBM para realizar parte das pesquisas feitas atualmente por advogados júnior.

O “Report: artificial intelligence will cause “structural collapse” of law firms by 2030” é bem acertivo ao afirmar que visualiza em 15 anos um colapso estrutural dos tradicionais escritórios de advocacia, pelo menos em alguns países na Europa e EUA. Alguns exemplos sinalizam que este cenário pode se tornar realidade. Alguns escritórios de advocacia nos EUA já usam Inteligência Artificial como “associado digital”, delegando a algoritmos preditivos a tarefa de executar buscas inteligentes por documentos, pareceres e jurisprudências referentes aos casos em análise.

Interessante que uma análise feita na Europa e EUA, sobre o uso de IA na advocacia, mostra que, salvo raras exceções, não são as tradicionais bancas de advogados, mas novos entrantes que investem no conceito. Vemos que o momento do Uber, Airbnb, Skype e Whatsapp se repete. As empresas estabelecidas tendem a ser conservadores e lutam para preservar seu modelo de negócios.

Enfim, estamos diante de mudanças significativas na sociedade e praticamente nenhuma função ou setor de negócios estará a salvo das transformações. Recomendo ler o texto “The Great Disruption: how Machine Intelligence will Transform the Role of Lawyers in the Delivery of Legal Services”. Ele mostra quais as atividades realizadas pelos advogados estão mais sujeitas à disrupção (busca por documentos, pareceres, criação de formulários, textos e memorandos, e mesmo predição dos resultados das causas em julgamento), como essa disrupção vai afetar o setor como um todo e como, provavelmente, os escritórios de advocacia irão usar seus talentos para combater a inovação.

Há um caso bem interessante de uso de algoritmos preditivos para auxiliar na tomada de decisão em casos que envolvem litígios em patentes, como o desenvolvido pela startup Lex Machina, que analisando dezenas de milhares de casos se propõe a predizer o resultado de determinado litígio.

O cenário conturbado, como o contexto que vemos hoje envolvendo o Uber e os taxistas, certamente vai acontecer quando os escritórios de advocacia sentirem reais ameaças ao seu modelo atual. Mas, alguns entenderão que o processo é irreversível e os vencedores serão os que conseguirem fazer o mix certo entre advogados e tecnologia.

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

Publicada em 21 de abril de 2016 às 08h01 no site CIO

118 Comentários

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Olha infelizmente, hoje os softwares (inclusive os citados) seguem uma linha de substituir o Juiz (dando possivel resultado) e os paralegais (não advogados que fazem pesquisas e etc). O trabalho do advogado que dificilmente será substituído é o de convencimento, especialmente nas legislações que usam o Tribunal do Juri para resolver conflitos.

O grosso do trabalho advocatício hoje é feito por maquinas, eu mesmo montei um banco de dados com decisões, sentenças e acordões que costumo usar em minhas peças que já se encontram previamente modeladas, pois desta forma eu elimino a necessidade de pesquisar em para cada peça judicial que redijo.

Outra função que dificilmente será extinta é de negociar acordos, quem lida com direito de família sabe que tem acordos que só podem ser feitos por advogados, pois as partes se matariam se ficassem na mesma sala por mais que 5 minutos. continuar lendo

Não sou do ramo, desculpem dar um pitaco. Quando ocorrer a situação é que se poderá avaliar essa extinção. Quando da implantação da telefonia celular no Brasil, trabalhava na área de telefonia, durante o processo de privatização ocorrido em 1998, alguns engenheiros da área de radiotransmissão comentavam que em menos de 10 anos a telefonia fixa seria extinta. Faz 16 anos e a telefonia fixa continua, e com novas empresas entrando no mercado instalando cabos telefônicos. continuar lendo

Em tese seria mais fácil substituir os advogados do que os juízes, tendo em vista que os primeiros buscam argumentos totalmente parciais, pró-cliente. Seria muito mais fácil programar um software que fosse capaz de enquadrar o autor/réu em um fato-tipo e coletar argumentos favoráveis enquanto varre código e jurisprudência do que montar um software que consiga pesar dois lados de uma mesma questão, expostos pelas partes, sopesar princípios conflitantes alegados cada um por uma delas, interpretar características circunstanciais do caso concreto e julgar elemento doloso. continuar lendo

E quando isso acontecer, haverá uma guerra entre homens e máquinas (risos). Por coincidência, na última premiação do oscar, um filme chamado "ex machina" ganhou o prêmio de melhor efeitos visuais. Esse filme trata exatamente da inteligência artificial e, vou ser bem sincero, se houver um desenvolvimento dessa tecnologia nos moldes em que o filme retratou, será assustador. continuar lendo

Dimitri, infelizmente o trabalho do advogado (do bom pelo menos) é criar argumentos novos a partir de cada caso e não repetir algo que alguém disse e forçar no caso concreto.

Rafael, leia o Jihad Butleriano da Saga Dunna. continuar lendo

Realmente, Felipe. No entanto, é notável que o exame da Ordem não seja suficiente para medir esse tipo de qualidade. Por alguma sorte - e bom senso das boas universidades - os cursos de bacharelado têm aberto mais espaço para discutir filosofia do direito, antropologia jurídica, hermenêutica e outras propedêuticas em geral. O problema é que cursos de Direito que se enquadram em "bons cursos" são a pequena minoria dos cursos ofertados pelo mercado. É por essa razão que ainda notamos uma legião de advogados legalistas, onde não são capazes de interpretar o texto legal do ponto de vista sistêmico, utilizando-se de artigos isolados como argumento autônomo e legítimo. Um computador jamais substituirá um bom advogado, você tem razão, mas o problema é que é mais fácil substituir a massa dos advogados do que dos concursados, não por qualidade da profissão, mas por número mesmo. Quantos advogados temos? Beiraremos quase 1 milhão de advogados em poucos anos, segundo índices de revistas internacionais. continuar lendo

Sobre inteligência artificial, já que você colocou uma sugestão, complemento com outra. Ela se denomina "Eu, Robô" (é o mesmo do filme do Will Smith, mas o livro não absolutamente nada a ver com o filme em vários aspectos). Nele, um pequeno robô guiado por IA adquire capacidades próximas da humana em aspectos psicológicos. É bem interessante, mas sinceramente, depois de ter estudado algumas matérias de hardware e programação no curso de engenharia da computação, duvido muito que isso seja possível. A eletrônica tem o seu limite, e a programação tem um limite dogmático que não pode ser extrapolado por nenhum método conhecido ou que esteja em vias de se conhecer. continuar lendo

Exatamente Dimitri, advogado que sempre se repete além de ineficiente não passa uma engrenagem que pode ser substituída por alguém a qualquer momento, e nesse caso por uma maquina (não seria uma perda para o mundo jurídico).
Uma coisa que não se compreende é que 90% das decisões judiciais especialmente no direto civil (empresarial, cambiário, contratos e etc) são fundadas em lógica matemática, do tipo "se, então". Este tipo de juízo (onde se concentra grande parte dos advogados repetidores) pode facilmente ser automatizado e criar agilidade além de reduzir o volume de processos que abarrotam o judiciário. continuar lendo

A máquina jamais substituirá integralmente um ser humano, pelo simples fato de que tudo nela é arte+ofício, é "mano factura", e obedece ao processo de linha de produção, portanto sem a possibilidade de adquirir a singularidade, especificidade. genialidade, criatividade do gênero humano! Máquina é conforme a minha vontade, limitada aos meus limites! continuar lendo

Vai sonhando Dr., atualmente "a tela aceita tudo". Esse seu "jamais" será engolido, cuidado, pois a evolução da IA é exponencial. continuar lendo

Ainda. IA é, justamente, a proposta de mudança. Vai demorar, mas, acontecerá. continuar lendo

Concordo quando diz que: "Máquina é conforme a minha vontade, limitada aos meus limites!" continuar lendo

Há vinte anos (1996) a Deep Blue derrotou o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov. Pare para pensar nas posições das peças em um tabuleiro. Se não bastasse em março deste ano o computador da Google consegui vencer o campeão mundial de Go na primeira das cinco partidas, algo considerado impossível de acontecer. E olha que ainda são programas, mais inteligentes mas programas. Imagine quando o IA desenvolver, provavelmente não substituirá somente o juiz, creio que achara a humanidade descartável. continuar lendo

Não confunda "máquina" com tecnologia moderna! A máquina conforme a sua vontade e limitada aos seus limites é coisa do passado! (Como um carro conduzido por um bêbado, atropelando todo o mundo. Um revólver na mão de um facínora,,etc.). Esta jamais substituirá um ser humano. Entretanto a tecnologia avançada, criada honestamente por seres inteligentes (não para substituir o homem) mas para torna-lo humano, esta sim tem que prevalecer.
Chega de "profissionais" defendendo a "categoria" : taxistas, advogados, etc. Estes que defendem bandidos em portas de cadeias, políticos corruptos, etc., pelo dinheiro "sujo". continuar lendo

Excelente o artigo. Já estou sentindo dificuldades, eu, advogado velho, meio "clínica geral" e cérebro de tudo o que sai de meu escritório. Não consigo enfrentar, como antes, os grandes escritórios de advocacia, por uma razão muito simples: eles dividiram minuciosamente as áreas do direito e possuem, para cada uma, um específico especialista. Suas manifestações, portanto, não são feitas apenas por duas mãos frente a um teclado. Muitas, muitíssimas mãos nelas interferem sob a assinatura de um único responsável. Tenho amigos especialistas. Em roda de fim de tarde, contou-me um deles que iria, juntamente com mais 3 colegas, atender uma simples dissolução de empresa. Iria ele, um especializado em Família, matéria sobre a qual pretende saber tudo. Na verdade, ele é o protótipo pré-histórico da advocacia do futuro. Amanhã será substituído por máquina. Prefiro uma resposta filosófica à indagação e digo: "amanhã advogados serão desnecessários pois não mais haverão conflitos"... continuar lendo

Admiravel mundo Novo amigo Guilherme Travassos continuar lendo

Não é preciso ter inteligência muito avançada para perceber que a maneira como se exerce as profissões e as atividades em geral está mudando.
Uma fábrica de automóveis que, na década de 60 do século passado gerava centenas de empregos, hoje se reduz a dezenas e ainda assim, qualificados, pois, manusear as máquinas robotizadas que fazem quase tudo sem necessitar do ser humano.
Os Bancos quase não empregam e fazem de tudo para o cliente se tornar cada vez mais virtual.
Professores em uma sala presencial estão com os dias contados. Os cursos online crescem cada vez mais.
Com relação aos advogados, é possível perceber que mudanças estão havendo, tendo em vista já ser possível peticionar online.
A inexistência ou "desaparecimento" de algumas atividades é tida como certa.
Quanto a advocacia, a tendência da solução das lides estão sendo cada vez mais direcionadas para a mediação e a arbitragem.
Nos moldes em que o Direito é exercido pelo nosso sistema jurídico, também sofrerá profundas mudanças. Até porque o ser humano muda, a sociedade evolui e com ela as atividades que exerce. continuar lendo